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2000 Story - Portuguese

 

O Alcance


            O pôr do sol sangrava sua cor por dentro das núvens encaracoladas.  Aquele restinho de calor me dava compania, só o suficiente para segurar as lágrimas de medo no canto dos meus olhos.  Agarrava-me ao tronco áspero de uma árvore, o frio torcendo meus ossos, o vento escorrendo afiado pela minha pele.  Não demoraria muito até que a luz fugisse de mim completamente, e aí sim, eu estaria lascado.
Tudo começou a dois anos atrás, quando me mudei para essa maldita cidadezinha.  Na verdade, essa história e muito mais antiga que isso, a trama já se desenrolava silenciosamente há milhares de anos.  Sim, milhares.  Sem exagero.  Meu papel só veio perto do final, entrei na jogada de besta que eu sou.  Meu nome é Steven Shores.  Eu tinha ouvido falar de umas aparições de discos voadores nessa cidadezinha, Moonville, e achei que seria um bom lugar pra me inspirar pro meu novo livro:  “Os Seres Verdes”.  Além disso era um bom ponto turístico, vida fácil, sabe?  Só de pensar que vim a Moonville procurando um pouco de paz e tranquilidade me dá uma dor atrás dos olhos, daquelas que trazem devolta as piores memórias, me relembrando constantemente da idéia mais estúpida que já tive na minha vida inteira.
            Meu primeiro susto foi só de enfeite, comparado com os que vieram depois.  Assim que eu resolvi todos os problemas da mudança, comecei a fazer passeios pelo centro da cidade, onde buscava inspiração para meu livro e aproveitava para checar as garotas.  Numa dessas, enquanto minha atenção estava desviada, sem querer esbarrei num mendigo, coitado.  O velho desabou na minha frente, instantaneamente, se curvou no chão com as mãos no rosto e deu alguns berros embreagados.  Tentei pedir desculpas, ofereci ajuda mas o velho ignorava tudo oque eu dizia, só pediu por um ‘penny’.  Meio desconfiado, tirei do bolso um dólar, mas como se fosse um bebê descontente ele jogou a nota pra trás e estendeu a mão novamente.  Finalmente fui ao banco e troquei um dólar por cem moedinhas de cobre novinhas.  O desgraçado tomou-as de mim com pressa e saiu pulando pelos becos sem nem agradecer.
            Tratei isso como um caso isolado de um típico louco beberrão, mas as perturbações não terminaram por aí.  Algo deve ter entrado na minha casa, durante a noite.  Acordei de manhã com uma pilha nojenta de sei-lá-oquê na minha cama.  Pedaços orgânicos, apodrecidos numa poça de ácido negro, viscuoso.  O susto me fez saltar da cama em menos de um segundo, e o cheiro me mandou direto pro banheiro.  Depois de repetidas seções de vômitos, me arrastei até a sala e liguei para o Killer.  Chegando dois minutos e meio depois, o grandalhão se espremeu pela entrada da minha casa, novamente com seu equipamento e uniforme completo de exército, pronto pra guerra.
“São só insetos, Killer!  Lança chamas não é um pouco drástico, não?”
Sem olhar pra mim, ele virou em direção à cama, molhou o dedo na meleca e enfiou na boca.  Só não vomitei denovo porque já tinha esgotado o conteúdo do meu estômago.  “Isso não é bom…” ele disse, sério.  Até hoje não sei se ele se refiria ao gosto daquilo ou à gravidade da minha situação.  Só sei que logo em seguida ele deu um passo pra trás, apontou o cano de sua arma pra minha cama e puchou o gatilho.  Sem tempo de protestar, senti o calor da explosão, cobri os olhos do jato brilhante e logo escutei a madeira dos meus móveis estalando em meio ás chamas.
            O seguro não pagou o prejuízo, nem o Killer.  Ele me deu a desculpa de que, graças a ele, eu ainda tinha uma língua para agradecê-lo pelo serviço.  Mandei ele pro inferno e aluguei um quarto de hotel.  Bem melhor, combinou com o meu estilo de vida.  Uma casa gigante com trezentos anos de madeira podre, infestada de insetos, e com substâncias não-identificadas pingando do teto não me deu exatamente a nostalgia que o revendedor me prometeu.  Nessa cidade esquizita haviam vinte delas iguaizinhas, posicionadas em forma de círculo ao redor de uma igreja, bem no meio da cidade.  Eu tinha notado a estranheza da arquitetura desse lugar dez do primeiro dia em que cheguei.  Quando desci do ônibus no topo do morro, olhei para o Vale da Lua e notei a estrutura das ruas e prédios, tudo organizadinho… mas ao mesmo tempo espalhado num padrão matemático, como se a cidade inteira estivesse soletrando alguma mensagem escondida.  E no meio, precisamente no meio da cidade ficava a igreja.  Igreja, catedral, templo, mesquita, sinagoga, pagoda, sei lá oque era aquilo.  Aquele prédio era a maior evidência da singularidade da cidade.  Resolvi visitá-la, ver como era por dentro.  Bem, eu havia feito um curso de arquitetura antiga e moderna, e eu te digo agora que, o estilo do lugar era impossível de ser identificado.  Passei uma tarde inteira examinando cada milímetro do lugar, pasmo.  Logo na entrada haviam colunas de pedra como as de templos Gregos, mas foram construídas de pedras negras, enfeitadas por uma arte quase que prehistórica.  As paredes tinham enfeites aparentemente góticos, mas com uma estilização oriental.  O teto era uma cúpula, como a de prédios do Meio Oriente, só que era oval, com proporções irregulares.  As estátuas, apesar de representarem anjos e figuras católicas, foram esculpidas em poses estranhamente parecidas como as de imperadores do Egito Antigo, sentados em tronos e segurando bastões.  Consegui até detectar vestígios de arte Máia e deuses Africanos dentre aquela mesclagem inteira.  Nas paredes haviam janelinhas redondas do tamanho de moedas, que deixavam entrar finos raios de luz.  Estes derramavam-se sobre cada uma das estatuas, contornando-as com uma linda aura prateada.  Logo no altar havia uma grande fonte de água corrente, que saía das mãos de uma estátua para dentro de uma grande bacia de pedra.  Sim, havia uma vidraça, bem acima do altar.  Um mozaico colorido formava um desenho triangular, e no meio havia a grande figura de um olho humano.  Uma coisa estranha de se ver.  Olhando para mim, com uma íris perfeitamente redonda, mas de várias cores juntas numa mixtura brilhante como eu nunca tinha visto antes.  Isso tudo despertou em mim um enorme sentimento de purificação, uma curiosidade mais provocativa que disco voador.  Mas ao mesmo tempo, tinha algo de terrível lá dentro, naqueles pizos.  Algo proibido.  Porque uma coisa que eu encontrei lá dentro não tinha lugar em nenhum período da história da civilização humana.  Encontrei este objeto mais tarde na minha busca, quando era tarde demais para desistir.
            Nada de mais aconteceu para me perturbar pelos próximos seis mêses.  Não tive coragem de visitar a igreja novamente.  Para me distrair, folheei pelos arquivos de jornais antigos.  As manchetes mais monótonas e mal escritas que já li.  Nada de acidentes, homicídios, suicídios, envenenamentos… por sinal, todas as mortes, dêz de 1803, foram atribuídas a causas naturais.  Mas quando resolvi visitar o cemitério – ironicamente era o lugar mais normal da cidade – me defrontei com uma extrema coincidência.  Onze gerações de médicos, todos da mesma família, Meyer, foram documentados mortos por falha cerebral.  Falha cerebral?  Passei pelos túmulos deles, e a parte mais interessante eram as datas.  Andei ao longo das plaquetas, lendo cada uma e fazendo cálculos na cabeça.  O primeiro de todos, William Meyer, nascido em 1734, morto em 1811…  Jeoffrey Meyer, nascido em 1754, morto em 1831…  Arnald Meyer, nascido em 1774, morto em 1851… todos morreram aos 77 anos.  Só havia um Meyer sobrando na família inteira, e, se meus cálculos estavam corretos, ele só teria mais alguns dias de vida.
            Normalmente o meu caráter sético imediatamente me diria para ignorar o caso, tratar como uma grande coincidência ou uma piada de mal gosto. Mas alguma coisa sobre estar em Moonville transformava a investigação do impossível numa obrigação.  O Doutor Meyer morava numa das vinte casas naquela rua circular.  Não foi difícil descobrir, só precisei perguntar a umas crianças na rua.  Descobri também que ele era o único médico da cidade, assim como o pai, o avô, o bisavô e os oito tataravôs que vieram antes.  Era só criar coragem pra bater na porta e dizer: “Dr. Meyer, sinto muito mas seu cérebro vai falhar inexplicavelmente daqui a vinte e quatro horas.”  Respirei fundo e subi os primeiros degraus em direção à porta da frente.  Não fui muito longe.
            De repente um grito arrepilante fez meus joelhos cederem sob meu peso.  Caí desequilibrado no chão e cobri o rosto, paralizado pelo susto.  Enquanto meus braços buscavam apoio para levantar meu corpo, minhas mãos encotraram a fonte daquele grito.  Era um tapete, bem abaixo dos meus pés.  Havia um desenho infantil de um fantasma, e as palavras “Tapete Gritante” em letras laranjas bem mal feitas.  Me mordi de medo por causa de um brinquedinho de dia das bruxas.  Olhei para os lados pra ter certeza de que ninguém me viu naquele estado embaraçoso.  Me virei em direção à casa novamente. Era igualzinha à casa que eu tinha comprado, mas em perfeitas condições. Os enfeites de Halloween já dependurados uniformemente sobre as janelas, a tinta nas paredes ainda branquinha, como se eles repintassem a casa com a mesma frequência em que trocavam de roupa.  Assim que cheguei no último degrau, me dei conta da minha idiotisse, virei cento-e-oitenta graus e comecei a descer.  Idiota, se você percebeu isso tudo tão rápido, você realmente acha que onze gerações de homens marcados para morrer aos 77 anos não iriam descobrir tal maldição antes?  Deve ser algum ritual de bruxaria, alguma seita maluca de suicídas como centenas de outras que existem por aí.  Trezentos anos de medicina deve deixar alguem meio--
            “Sr. Shores… então você descobriu nosso pequeno segredo.”
            A voz quase me derrubou denovo.  Era um tom fúnebre e desgastado daquelas vózes de velhinho, congelando os pelinhos do meu pescoço.  Ele sabe o meu nome.
            “C-como?” eu virei devagar, meu corpo pesando uma tonelada.
            “Não era pra terem descoberto tão cedo,” ele desceu um degrau em minha direção, um sorriso agudo em seus lábios.  “Ainda falta muito pro dia das bruxas, eu queria que fosse uma surpresa para os pequeninos.”
            “Heim? Surpresa… mas…”
            “O tapete, Sr. Shores.  Ainda está muito cedo pra descobrir o segredo desse tapete,” ele passou por mim e se abaixou para tirar o tapete do caminho. “Eu queria ver os pequeninos levarem um sustinho dessa vez, sabe, fugir da tradição um pouquinho.”
            “Ah… pois é… o tapete, sim, é claro.  Meu nome… como você sabe…?”
            O velho olhou nos meus olhos por alguns segundos, me estranhando.
            “Deixa-me ver,” coçou a cabeça artificialmente, “são tantos que se mudam pra Moonville diariamente que eu até perco a conta! Ora bolas…”
            Me senti como um bobão pela terceira vez em apenas dois minutos.
            “Bem, eu vim pra me introduzir a vizinhança, mas o senhor já me conhece, então--”
            “Você…” ele fixou os olhos nas minhas mãos por uns instantes, como se procurava suas próximas palavras nos movimentos dos meus dedos.  “…Aceita um cafezinho?”
            Só aceitei a oferta porque não havia tomado o copinho do dia, já que o café do hotel era o mesmo que água com açúcar.  Também pra ver se a casa dele era tão estranha como a minha.  Tudo lá dentro parecia intocável de tão antigo.  Uma camada fina de poeira cobria todos os móveis, como se nunca tivessem sido usados.  Falamos por quinze minutos sobre coisas insignificantes, não concegui criar coragem para perguntar nada sobre a tal maldição.  O coitado parecia meio desligado do mundo.  Ficou viúvo cinco anos atrás, disse que esta já era a sua décima quinta esposa.  Não tinha filhos.  Uma coisa me chamou atenção naquela casa.  Quando ele me deixou sozinho para buscar o café, me aproximei de uma pintura gigante, pendurada sobre a lareira, que capturava a cena de uma batalha feróz.  Novamente o estilo era irreconhecível, e as cores eram vibrantes.  Cada traço do pincel continha em si a mesma magia descritiva de uma poezia.  Era noite, numa floresta.  Uma tropa de homens europeus, dos tempos coloniais, disparavam seus rifres contra guerreiros indígenas.  Expressões de dor e bravura, tão detalhadas que fariam alguém sensível chorar de pena.  Mas os rostos, estranho, pareciam todos estarem virados em minha direção, com os pescoços meio que torcidos.  Os olhos eram redondos e um pouco grandes demais, ás vezes fora do lugar.  Um dos guerreiros no canto tinha apenas um olho.

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© 2006 Luis Dechtiar.