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            “Então, Doutor,” botei as mãos nos joelhos, pronto para me levantar, “Obrigado pelo café, tô com coisas pra fazer lá em casa, então...”
            “Um prazer tê-lo aqui, Sr. Shores,” ele enrrugou a testa como se estivesse anunciando uma lei científica.  Com os olhos no chão ele deu um sorrizo ao pronunciar as últimas palavras.   “Tomara que você me visite bastante...”
            Ele quiz dizer no cemitério.  Na manhã seguinte as manchetes do jornal anunciaram o falecimento do Doutor Francis Issyn Meyer.  Dessa vez ele não deixou descendentes para tomar conta do hospital.  Tiveram que chamar ás pressas um médico da cidade vizinha por causa da morte “inesperada”.
            Cada vez que eu vizitava um lugar novo naquela cidade, não tinha vontade de retornar.  Eu não queria admitir na época, mas era medo.  Tinha um pressentimento ruím crescendo dentro de mim, esperando que algo acontecesse a qualquer momento.  Foi na minha visita à biblioteca que mergulhei completamente nesse mistério.  Entrei lá numa manhã nublada, quando a primeira nevasca de inverno tornou meus passeios pela praça impossíveis.  Nao tinha ninguém na biblioteca, todo mundo na escola ou no trabalho, e eu, vagabundando.  Fui até a prateleira de ficção científica.  Parei em frente de uma seleção minúscula de livros de aventura.  Enquanto eu me abaixava para pegar um livro, atrás de mim, algo caiu no chão.  Havia uma outra pessoa lá comigo.  Alguém do outro lado da estande tinha empurrado um livro sem querer.  Não vi o rosto, mas ele pediu desculpas lá do outro lado.  Peguei o livro do chão e retornei a prateleira.  Quando comecei a me virar, congelei no lugar.
Aquela voz… não pode ser.
            Corri sob um disparo de adrenalina, até o fim da estande e olhei em todas as direções.  Fui até o fim do corredor, sem sucesso.  Não tinha ninguém, em lugar nenhum.  Parei pra escutar, mas nada de sons.  O meu coração batia forte.  O livro.  Ele queria que eu encontrasse o livro.  Com passos bem lentos, retornei à mesma estande e fiquei ali, parado.  Nada aconteceu.  Fiquei ali, por vários minutos antes de botar as mãos no livro.  Quando tirei da estande, carreguei até a mesa sem olhar pra capa, deixei ali e sentei.  Era um livro sem título. Mais de quinhentas páginas empoeiradas pra lêr.  Olhei pela janela da biblioteca, lá fora a tempestade estava brutal, e eu nem tinha um casaco de inverno pra pelo menos chegar em casa vivo.  Bem… acho que o começo é um bom lugar pra começar.
            As horas que se seguiram foram as mais involventes da minha vida.  Comecei a ler com um pouco de dificuldade, o inglês era antigo, arcaico, poético e ásvezes até científico demais.  A primeira parte do livro contava com o maior detalhe, uma lenda.

Em épocas passadas, ninguém se sabe quando, veio a terra o espírito de um ser divino.  Encorporado num homem simples, ele viajou pelos continentes, escolhendo dentre os homens e mulheres da terra, vinte seguidores que prometessem dar suas vidas a sua causa.  Numa época em que mal haviam navios para se navegar, este grupo de viajantes atravessou oceanos, ao longo de centenas de anos até que o último dos vinte seguidores fosse encontrado.  E então, finalmente pararam numa terra verde, farta de vida, para construirem sua cidade.  A jornada deste líder finalmente foi cumprida, então ele dirigiu-se aos seus amados seguidores com palavras de despedida, deixando-lhes o poder de viverem por mais outros mil anos, até que a construção fosse completa, aguardando o seu próximo retorno.  A lenda diz que ele deixou com seus servos, na forma de versos enigmáticos, instruções para a construção de uma cidade.  Num certo aparatus, canalizado por dentro da cidade, haveria uma máquina complexa aonde seria guardada uma força tremenda, um poder que só poderia ser igualado ao Sol, cujo propósito não seria entendido por muito tempo ainda.  Dito isso, os vinte iniciaram sozinhos a construção desta tremenda estrutura.
            Junto de todo grande poder há sempre a força da tentação.  Especialmente sob a pressão do sofrimento.  Estes homens e mulheres já haviam suportado quase um milênio de suas vidas imortais, e mais sofrimento os esperava no seculo XVI.  Homens estranhos começaram a chegar, ameaçando o segredo que os vinte haviam escondido todo este tempo.  Com a união de várias tribos indígenas para lutar junto a eles, os seguidores conceguiam resistir a conquista dos europeus, mas a vida de muitos foram sacrificadas.  Inclusive o mais corajoso dos vinte: Niassu Hallum.  Depois de sua morte, desânimo se espalhou, e um por um os outros foram mortos em batalhas, não conceguindo resistir aos constantes ataques e às armas de pólvora.  Finalmente, sem poder aguentar mais este massacre injusto, Sallumbrae, um dos primeiros seguidores, resolveu desobedecer as ordens de seu mestre.  Ele entrou nas catacumbas mais profundas da cidade, e ativando a força do aparatus sobre ele mesmo, centralizou uma imensa quantidade de poder pelo seu corpo, enchendo suas veias, espalhando pelos seus músculos e sua mente, se tornando o mais poderoso ser na face da terra.  Com esta benção ele foi capaz de pulvorizar os homens que tentavam se aproximar da cidade.  Após salvar a cidade da destruição, os índios e os doze seguidores que sobreviveram tinham Sallumbrae como um herói.  Mas o sentimento de culpa por terem rompido o convênio com o seu mestre ainda estava presente.  Quando a hora chegou para Sallumbrae retornar o seu poder ao aparatus, porém, ele teve uma reação inesperada.  Recusou, usando o argumento de que a cidade precisava de um guardião, e que ele era naturalmente o escolhido.  A tentativa dos outros para relembrá-lo de que os vinte deveriam manter a unidade não surgiram efeito na mente de Sallumbrae, que agora tinha sido contaminada por aquele poder imenso.  A personalidade de Sallumbrae começou a ficar mais e mais destorcida, e numa certa ocasião, ele ficou extremamente irritado por um dos outros seguidores, e como uma simples demonstração de seu poder, descarregou um raio que matou seu companheiro na hora.
Um terror se espalhou entre os onze restantes, que reconheceram a necessidade de agir contra o traidor.  Eles se reuníram secretamente e formularam um plano.  Eles iriam entrar na cidade no meio da noite, e descer até o fundo para usar o resto da energia neles mesmos, assim podendo igualar seus poderes aos de Sallumbrae e derrotá-lo numa última batalha.  O plano iria funcionar, se não fosse por um pequeno detalhe.  Sallumbrae já tinha se preparado para isso a muito tempo com seus próprios planos.  Na descida até o fundo da cidade, os onze foram surpreendidos por uma horda de criaturas horrendas, que os atacaram furiosamente ao longo do caminho.  Elas surgiam das sombras de repente, atacando com suas garras e mandíbulas afiadas, e mergulhavam no escuro novamente, sem deixar rastros.  Sem poderem lutar contra as criaturas, três deles foram rasgados em pedaços, muitos outros feridos ou envenenados por um ácido negro que as criaturas cuspiam em suas vítimas.  Depois de passar por este teste, os oito restantes ainda enfrentariam mais pela frente.  A energia que restava no aparatus era muito menos que eles esperavam.  Sallumbrae tinha retornado ao lugar várias vezes para restaurar o seu poder e dar cria a mais uma de suas tramas.  Afezu Manelem.  Treinando-o secretamente dentro de cavernas nas redondezas, Sallumbrae deu a Afezu um poder que o permitia uzar a energia do cobre para recuperar qualquer dano feito ao seu corpo.  E as cavernas da região eram abundantes em cobre.  Assim, ele tinha criado um servo invensível para proceguir com seus planos.
            O confronto final se iniciou, e uma batalha colossal entre seres sobre humanos se passou no Vale da Lua, onde golpes a velocidades incríveis e a forças incomensuráveis romperam crateras pelo vale inteiro, destruindo a vegetação, reduzindo a cidade a cinzas e desmoronando grande parte do aparatus subterrâneo.  Apesar dos números, os oito seguidores tiveram muitas dificuldades lutando contra os dois traidores, e um por um eles foram morrendo, enquanto os outros dois mal se enfraqueciam.  Finalmente, um dos três últimos sobreviventes sacrificou sua vida ao esgotar todas as suas forças numa descarga gigante contra o corpo de Sallumbrae.  Quase para morrer, Sallumbrae ainda tinha um último plano.  Ele deu o sinal a Afezu, que começou a correr para longe do vale, atraindo os dois servos que restaram para dentro das cavernas.  Enquanto isso, Sallumbrae entrou numa passagem secreta abaixo do templo, aonde aguardava por ele uma cápsula.  Entrando nela, a cápsula se feixou, e usando o resto da energia do aparatus, foi arremessada aos céus por uma grande explosão.  Afezu se alimentava ainda mais com o cobre das cavernas, recuperando todos os danos instantaneamente.  Ele assim matou mais um dos seguidores, restando um apenas um: Issyn Meyer.  Nos seus ultimos instantes de vida Meyer percebeu o truque de Afezu e fugiu da caverna, usando um grande bloco de pedra para interromper a passagem e ganhar algum tempo para fugir do lugar.  Mantendo a fé em seu mestre, Meyer viveu ás escondidas no Vale da Lua, usando suas habilidades para ajudar outros habitantes pelos próximos quinhentos anos até o retorno de seu mestre.  Afezu Manelem permaneceu nas cavernas, saindo ocasionalmente para coletar mais cobre, acumulando forças para o retorno de Sallumbrae.  A cápsula com o corpo de Sallumbrae permanece numa órbita ao redor da terra, esperando o dia em que a professia irá se cumprir.  O dia em que o Mestre se erguer da terra novamente, e o dia em que Sallumbrae cair do céu, para dar início a Ultima Batalha.

            Meus cotovelos escorregaram na mesa de tão trêmulos, e bati de testa no livro.  Eu li e reli aquelas últimas linhas, sem acreditar noque estava acontecendo comigo.  Tudo isso, histórias de deuzes andando na terra, tudo isso aqui mesmo, nos subterrâneos de Moonville.  Debaixo dos meus pés.  Eu NUNCA iria acreditar numa lenda dessas, mas algo lá no fundo de mim sabia que era tudo verdade, como se eu soubesse a verdade dez do dia em que eu nasci.  Fechei o livro com desgosto, empurrei pra bem longe de mim.  Eu me levantei e dei uns passos fracos pela sala, mas comecei a passar mal, suando toda a água do meu corpo.  Cinco horas já tinham se passado, e eu só havia lido até a metade do livro.  Algo me dizia que a segunda parte revelaria a última esperança da humanidade, senti uma obrigação de continuar.  Sentei novamente e voltei a ler.

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